
(Um post para o Rafael, porque sei que teria adorado conhecer o Abajur Mais Feio do Mundo)No momento em que redijo esse texto, à caneta, e espero publicá-lo no blog sem grandes modificações, desenrola-se uma palestra de uma grande professora, em um grande Congresso Internacional de Literatura. O cenário é um grande casarão no Rio de Janeiro, herança da opulência da família real foragida na colônia. Divido a sala com outros grandes: professores, críticos literários e doutores - não sem a razão o pé direito do lugar é tão alto - e com o Abajur Mais Feio do Mundo.
Sim, senhoras e senhores, leitores do meu humilde, diminuto e preguiçoso blog, apresento-lhes o abajur mais feio do mundo. (podem conferir por si mesmos, a foto é real). Seu corpo não combina com a cúpula, e os dois decididamente descombinam do resto do auditório improvisado, quiçá do resto do universo. Bojudo, em forma de vaso, a porcelana adornada com motivos florais, em pelo menos quatro cores (meu posto de observação não encontra-se perto o suficiente para maiores minúcias, desculpem-me). À moda de cúpula, uma espécie de saia godê estampada em cores terrosas e arrematada por uma barra larga está atada por um laçarote vermelho, desses de buquês de rosas do dia dos namorados.
Enquanto fico me perguntando quem poderia ter sido o criador de tamanho acinte para a classe dos objetos de decoração, percebo duas professoras cochilando ante a fala da oradora, que já deve ter se estendido por uma boa meia hora, uma pena que eu não tenha cronometrado. Outro corresponde-se por sms com alguém, numa mini-conferência que parece bem mais animada que a nossa. Pessoas entram e saem o tempo todo, o cigarro e o banheiro como perfeitas desculpas para esticar as pernas e espantar o sono. Há quem faça cara séria, claro: quanto mais monocórdio o tom da voz que palestra, mais e mais sérias as caras. Em que transe estarão imersos, isso eu não sei, mas deve ser importante.
Já quando eu achava que tudo ia ficar por isso mesmo, a luz do abajur de súbito piscou. Ninguém percebeu, posto que todos os outros estavam concentrados, ou desconcentrados, depende do referencial. Só eu, na minha contemplação ainda aturdida, olhos fitos novamente no Abajur Mais Feio do Mundo: piscou para mim, percebi. Não é por ser feio (afinal, que culpa tem um abajur?) que o pobre não pode desenvolver talentos críticos, e talvez até a autocrítica - o ornitorrinco do design é, na verdade, como descobri rapidamente, muitíssimo observador, e estava justamente medindo a mim, da mesma forma que o media, e que, cúmplices, cobríamos a extensão da sala com nossos olhares meio enfadados, meio divertidos.
Faz-se necessário que eu os alerte, nesse momento: das conclusões as quais o abajur mais feio do mundo chegou nessa noite, só posso fazer suposições, visto que não tivemos tempo ou oportunidade para uma conversa - nossa relação estava condenada pelas convenções do evento. Doutor Fulano, com sua baixa resistência ao vinho do coquetel, pode muitíssimo bem pendurar-se no lustre mais próximo. Já a mim não me é permitido trocar impressões com um abajur, por mais sóbria que esteja; a vida está cheia de injustiças.
Mas vamos às suposições: o Abajur Mais Feio do Mundo provavelmente notou minha aparência, visto que eu não estava menos "confeitada" do que ele (ainda que, no meu caso, as coisas combinem entre si). Saltos altos, vestido e alguma maquiagem, figurino adequado ao evento solene. Posso argumentar ao meu favor que mandaram-me ir (sic) "vestida como uma mocinha", e que eu ouço e obedeço, uma vez que minha condição é, como vocês já devem ter imaginado, a de mestranda-monitora, o soldado raso da vida acadêmica. Imagino que ele também poderia argumentar em defesa própria que, se pudesse ter escolhido, seria um abajur mais clean, que teria se desfeito há muito daquela cúpula medonha, mas que sua bontade e apurado senso estético não lhe foram suficientes para que criasse braços e acabasse com seu martírio.
Como é um abajur sistemático - sua luz guardava claras intenções taxionômicas - tenho para mim que concebeu um sistema para englobar todos os participantes daquela noite. Eu, que não sou uma alma dotada das virtudes da organização, posso apenas intuir as principais categorias, que ele muito provavelmente refinou. A primeira (e mais evidente) casta é composta pelas estrelas da noite: os maiores professores/críticos. Conversam o tempo todo, movimentando-se pouco, já que os grupos se formam em torno deles, e não o contrário. A lei da gravitação universal, os corpos que tem mais massa, etc. Em geral são seguidos de perto por professores do segundo escalão, menos famosos, mais jovens ou tão somente membros de universidades obscuras. Esses sim, movimentam-se o tempo todos, são os prováveis responsáveis pelo equilibrio osmótico das relações acadêmicas. Um outro grupo, também bastante numeroso, se faz notar ao longe: são doutorandos e mestrandos aparentando naturalidade, mas com claras intenções de fixar raízes - minha rudeza de modos diria que são os comumente chamados puxa-sacos, mas tenho certeza absoluta de que o Abajur Mais Feio do Mundo jamais empregaria este termo; ele tem um século a mais de experiência que eu, pelo menos, e dizem que a idade abranda qualquer ânimo, e nos faz relevar muita coisa. Fiquem os senhores leitores avisados que longe de mim está a ideia de fazer pouco caso desse grupo: serão eles, e não outros, os que sentarão suas honoráveis bundas em cátedras ainda mais honoráveis. É sabido, e não é preciso ser um abajur-antropólogo para notar o fato, que para desbravar a selva acadêmica não basta ser um bom profissional, é necessário saber fazer política. Depois dos doutorandos/mestrandos promissores, há ainda os monitores-formiga, que correm(os) para todos os lados, e os alunos de graduação, que não sabem muito bem como chegaram ou como irão embora dali. Mas essas duas categorias não necessitam de descrição acurada: o sal da terra, diria o Abajur. Os manés, emendo eu.
E assim poderia continuar, mas a oradora, ao que parece, (finalmente, finalmente!) acabou. Palmas entusiasmadas, francamente ansiosas pelo coquetel. Já me chamam para recolher sei-lá-o-quê, e eu decido fingir que não vi, assim, simples. É tempo de me despedir do meu novo amigo, o Abajur Mais Feio do Mundo, que pisca uma última vez para mim: "vá respirar um pouco de vida real", quase posso ouvi-lo sussurar, o laçarote vermelho tremulando, maroto, enquanto eu digo um Tchau, e obrigada com os olhos, e saio claudicando no piso de tábua corrida, até onde meus saltos puderem me levar.