quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Papéis Recicláveis III

Escreva, ele disse. Você tem vergonha de mostrar para o mundo que sabe escrever. Escrevo, talvez porque ele tenha pedido, sem saber ao certo o que escrever. Linhas galopantes de insônia, trôpegas de sentido - eu que sou tão cuidadosa. Tão somente para apreender na memória das coisas o exato instante em que a sinceridade cruzou aquele par de olhos, não durou sequer o correr da linha sobre a página, veja que já passou e agora era outra vez máscara sobre máscara sobre máscara.
Escreva, ele disse. E como eu desde sempre soube que escrever é lançar pontes, tenho medo. Escrever é aquele relâmpago de sinceridade correndo nos olhos, a vontade que sufoco na sintaxe do cotidiano. Mas escrevo, entretanto, talvez porque ele tenha pedido. E escrevo sobre ele, que sequer imagina. Pedaço de nuvem, distante e inapreensível, um vento louco por dentro soprando sobre os passos impertinentes que reconfiguram o mundo.
Eu só queria ter dito que entendo, ainda que não entenda, porque nunca se entende nada, de todo. Eu só queria que ele não me mandasse escrever, porque escrever é também a tentativa de entender. E eu só queria não entender, porque os que não entendem saem por aí vivendo almoços de domingo, engarrafamentos, casamentos de primas distantes, problemas da especulação do mercado imobiliário, enquanto eu. É tarde. Sob meus dedos eu o desenho à palavras. E faço com que durma, e coloco um ponto final para não atrapalhá-lo em minha vigília desajeitada.
Escrevo, digo eu. Que queria esquecer o escrever, e ficar quieta no meu canto. Talvez porque ele tenha pedido, e simplesmente porque ele não lerá.
Esta é minha vingança.
É também minha ternura.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Prato do Dia: Como falar poesia, Leonard Cohen (sim, o cantor)

Pegue a palavra borboleta. Para usar essa palavra não é preciso fazer sua voz pesar menos de um grama, ou adorná-la com pequenas asas empoeiradas. Não é preciso inventar um dia de sol ou um campo de narcisos. Não é preciso estar apaixonado, ou estar apaixonado por borboletas A palavra borboleta não é uma borboleta de verdade. Há a palavra e há a borboleta. Se você confundir essas duas coisas as pessoas terão o direito de rir de você. Não faça tanto da palavra. Você quer sugerir que ama as borboletas mais do que qualquer um, ou que realmente entenda a sua natureza? A palavra borboleta é apenas um detalhe. Não é uma oportunidade para você flutuar, elevar-se, ficar amigo das flores, simbolizar beleza e fragilidade, ou de qualquer forma personificar uma borboleta. Não interprete as palavras. Jamais interprete as palavras. Jamais tente sair do chão quando falar em voar. Jamais feche os olhos e solte a cabeça para o lado quando falar de morte. Não me olhe com olhos ardentes quando falar de amor. Se quiser me impressionar quando falar de amor coloque sua mão no bolso ou debaixo do seu vestido e se divirta. Se a ambição e a sede de aplausos te fazem falar de amor você deve aprender a fazer isso sem envergonhar a si mesmo ou ao material.
Que atitude a época espera? A época não espera atitude alguma, Nós vemos fotografias de mães asiáticas desoladas. Não estamos interessados na aflição dos teus órgãos desastrados. Não há nada que você possa mostrar em seu rosto que se compare ao horror desses tempos. Sequer tente. Você conquistará apenas o desprezo daqueles que sentiram as coisas profundamente. Nós vemos noticiáriosde pessoas nos extremos da dor e desagregação. TOdos sabem que você está bem alimentado e até mesmo sendo pago para ficar lá de pé. Você está representando para pessoas que viveram uma tragédia. Isso deveria te deixar bem quietinho. Fale as palavras, comunique os detalhes, dê passagem. Todos sabem que você está com dor. Você não pode contar à platéia tudo o que você souber sobre o amor em todo verso de amor que disser. Dê passagem e eles saberão o que você sabe porque eles já sabem disso. Você não tem nada a lhes ensinar. Você não é mais bonito do que eles são. Você não é mais sábio. Não grite com eles. Não force uma penetração seca. Isso é sexo ruim. Se você mostrar versos dos seus genitais, então dê o que você prometeu. E lembre-se que as pessoas de verdade não querem um acrobata na cama. Do que precisamos? Estar perto do homem comum. Não dê uma de cantor queridinho com um imenso público fiel que seguiu todos os altos e baixos da sua vida até esse momento. As bombas, os lança-chamas e toda essa merda destruíram mais que apenas árvores e vilas. Eles também destruíram o palco. Você pensou que sua profissão escaparia do caos geral? Não há mais palco. Não há mais ribalta. Você está entre pessoas. Então seja modesto. Fale as palavras, comunique os detalhes, dê passagem. Esteja por conta própria. Como em seu próprio espaço. Não finja.
Isso é uma paisagem interior. Isso é particular. Isso é pessoal. Respeite a privacidade do material. Essas falas foram escritas em silêncio. A coragem da peça está em dizê-las. A disciplina da peça está em não as violar. Deixe a platéia sentir seu amor secreto ainda que não haja segredo. O poema não é um slogan. Ele não pode te anunciar. Ele não pode promover sua reputação para a sensibilidade. Você não é um garanhão. Você não é uma mulher fatal. Toda essa droga sobre os mafiosos do amor. Você é um estudante da disciplina. Não interprete as palavras. As palavras morrem se você as interpreta, elas murcham, e não nos resta nada mais a não ser a tua ambição.
Fale as palavras com a mesma precisão com que você checaria uma lista de lavanderia. Não fique emocionado com a camisa de renda. Não tenha uma ereção quando disser calcinhas. Os lençóis não devem causar uma expressão sonhadora nos olhos. Não é necessário derramar lágrimas em lenços. As meias não es´tão lá para te lembrar de estranhas e distantes viagens. É apenas a sua roupa para lavar. É apenas a sua roupa. Não espie dentro delas, somente as vista.
O poema não é nada mais que informação. É a Constituição do país interior. Se você a declamar e explodir de boas intenções então você não é melhor do que os políticos que despreza. Você é apenas alguém agitando uma bandeira e apelando da maneira mais precária por alguma espécie de patriotismo emocional. Pense nas palavras como uma ciência, não como arte. Elas são um relatório. Você está falando num encontro do Clube de Exploradores da National Geographic. Esse pessoal sabe todos os riscos de escalar montanhas. Eles te respeitam por não chover no molhado. Se você ficar jogando isso na cara deles será uma ofensa à sua hospitalidade. Conte a eles sobre a altura da montanha, o equipamento que você usou, seja específico sobre as superfícies e o tempo que levou para escalar. Não tente arrancar da platéia aplausos e suspiros, isso virá da apreciação deles do evento, não da sua. Isto estará nas estatísticas e não num estremecer de voz ou quando cortar o ar com as mãos. Isto estará nos detalhes, e não na disposição silenciosa da sua presença.
Evite florear. Não tenha medo de ser fraco. Não tenha vergonha de estar cansado. Você fica bem quando está cansado. Como se pudesse continuar para sempre. Agora venha para os meus braços. Você é o retrato da minha beleza.
IN: Atrás das linhas inimigas de meu amor. Tradução: Fernando Koproski (com uma ou outra pequena modificação minha). Editora 7 Letras, 2007

sábado, 24 de outubro de 2009

O Abajur Mais Feio do Mundo


Adicionar imagem(Um post para o Rafael, porque sei que teria adorado conhecer o Abajur Mais Feio do Mundo)

No momento em que redijo esse texto, à caneta, e espero publicá-lo no blog sem grandes modificações, desenrola-se uma palestra de uma grande professora, em um grande Congresso Internacional de Literatura. O cenário é um grande casarão no Rio de Janeiro, herança da opulência da família real foragida na colônia. Divido a sala com outros grandes: professores, críticos literários e doutores - não sem a razão o pé direito do lugar é tão alto - e com o Abajur Mais Feio do Mundo.

Sim, senhoras e senhores, leitores do meu humilde, diminuto e preguiçoso blog, apresento-lhes o abajur mais feio do mundo. (podem conferir por si mesmos, a foto é real). Seu corpo não combina com a cúpula, e os dois decididamente descombinam do resto do auditório improvisado, quiçá do resto do universo. Bojudo, em forma de vaso, a porcelana adornada com motivos florais, em pelo menos quatro cores (meu posto de observação não encontra-se perto o suficiente para maiores minúcias, desculpem-me). À moda de cúpula, uma espécie de saia godê estampada em cores terrosas e arrematada por uma barra larga está atada por um laçarote vermelho, desses de buquês de rosas do dia dos namorados.

Enquanto fico me perguntando quem poderia ter sido o criador de tamanho acinte para a classe dos objetos de decoração, percebo duas professoras cochilando ante a fala da oradora, que já deve ter se estendido por uma boa meia hora, uma pena que eu não tenha cronometrado. Outro corresponde-se por sms com alguém, numa mini-conferência que parece bem mais animada que a nossa. Pessoas entram e saem o tempo todo, o cigarro e o banheiro como perfeitas desculpas para esticar as pernas e espantar o sono. Há quem faça cara séria, claro: quanto mais monocórdio o tom da voz que palestra, mais e mais sérias as caras. Em que transe estarão imersos, isso eu não sei, mas deve ser importante.

Já quando eu achava que tudo ia ficar por isso mesmo, a luz do abajur de súbito piscou. Ninguém percebeu, posto que todos os outros estavam concentrados, ou desconcentrados, depende do referencial. Só eu, na minha contemplação ainda aturdida, olhos fitos novamente no Abajur Mais Feio do Mundo: piscou para mim, percebi. Não é por ser feio (afinal, que culpa tem um abajur?) que o pobre não pode desenvolver talentos críticos, e talvez até a autocrítica - o ornitorrinco do design é, na verdade, como descobri rapidamente, muitíssimo observador, e estava justamente medindo a mim, da mesma forma que o media, e que, cúmplices, cobríamos a extensão da sala com nossos olhares meio enfadados, meio divertidos.

Faz-se necessário que eu os alerte, nesse momento: das conclusões as quais o abajur mais feio do mundo chegou nessa noite, só posso fazer suposições, visto que não tivemos tempo ou oportunidade para uma conversa - nossa relação estava condenada pelas convenções do evento. Doutor Fulano, com sua baixa resistência ao vinho do coquetel, pode muitíssimo bem pendurar-se no lustre mais próximo. Já a mim não me é permitido trocar impressões com um abajur, por mais sóbria que esteja; a vida está cheia de injustiças.

Mas vamos às suposições: o Abajur Mais Feio do Mundo provavelmente notou minha aparência, visto que eu não estava menos "confeitada" do que ele (ainda que, no meu caso, as coisas combinem entre si). Saltos altos, vestido e alguma maquiagem, figurino adequado ao evento solene. Posso argumentar ao meu favor que mandaram-me ir (sic) "vestida como uma mocinha", e que eu ouço e obedeço, uma vez que minha condição é, como vocês já devem ter imaginado, a de mestranda-monitora, o soldado raso da vida acadêmica. Imagino que ele também poderia argumentar em defesa própria que, se pudesse ter escolhido, seria um abajur mais clean, que teria se desfeito há muito daquela cúpula medonha, mas que sua bontade e apurado senso estético não lhe foram suficientes para que criasse braços e acabasse com seu martírio.
Como é um abajur sistemático - sua luz guardava claras intenções taxionômicas - tenho para mim que concebeu um sistema para englobar todos os participantes daquela noite. Eu, que não sou uma alma dotada das virtudes da organização, posso apenas intuir as principais categorias, que ele muito provavelmente refinou. A primeira (e mais evidente) casta é composta pelas estrelas da noite: os maiores professores/críticos. Conversam o tempo todo, movimentando-se pouco, já que os grupos se formam em torno deles, e não o contrário. A lei da gravitação universal, os corpos que tem mais massa, etc. Em geral são seguidos de perto por professores do segundo escalão, menos famosos, mais jovens ou tão somente membros de universidades obscuras. Esses sim, movimentam-se o tempo todos, são os prováveis responsáveis pelo equilibrio osmótico das relações acadêmicas. Um outro grupo, também bastante numeroso, se faz notar ao longe: são doutorandos e mestrandos aparentando naturalidade, mas com claras intenções de fixar raízes - minha rudeza de modos diria que são os comumente chamados puxa-sacos, mas tenho certeza absoluta de que o Abajur Mais Feio do Mundo jamais empregaria este termo; ele tem um século a mais de experiência que eu, pelo menos, e dizem que a idade abranda qualquer ânimo, e nos faz relevar muita coisa. Fiquem os senhores leitores avisados que longe de mim está a ideia de fazer pouco caso desse grupo: serão eles, e não outros, os que sentarão suas honoráveis bundas em cátedras ainda mais honoráveis. É sabido, e não é preciso ser um abajur-antropólogo para notar o fato, que para desbravar a selva acadêmica não basta ser um bom profissional, é necessário saber fazer política. Depois dos doutorandos/mestrandos promissores, há ainda os monitores-formiga, que correm(os) para todos os lados, e os alunos de graduação, que não sabem muito bem como chegaram ou como irão embora dali. Mas essas duas categorias não necessitam de descrição acurada: o sal da terra, diria o Abajur. Os manés, emendo eu.
E assim poderia continuar, mas a oradora, ao que parece, (finalmente, finalmente!) acabou. Palmas entusiasmadas, francamente ansiosas pelo coquetel. Já me chamam para recolher sei-lá-o-quê, e eu decido fingir que não vi, assim, simples. É tempo de me despedir do meu novo amigo, o Abajur Mais Feio do Mundo, que pisca uma última vez para mim: "vá respirar um pouco de vida real", quase posso ouvi-lo sussurar, o laçarote vermelho tremulando, maroto, enquanto eu digo um Tchau, e obrigada com os olhos, e saio claudicando no piso de tábua corrida, até onde meus saltos puderem me levar.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Papéis Recicláveis II

Porque não faz sentido para mim que a gente tenha medo das coisas que a gente ama, ele disse, e a sensação de ser uma covarde imprestável pesou sobre mim, me fez encolher no banco. Respirei com dificuldade. E tive de conter o desejo de agarrá-lo pela camisa, fazendo-o desviar os olhos do trânsito, aos gritos: veja, é exatamentente das coisas que a gente ama que precisamos ter mais medo! Que só o que amamos nos afeta, nos fere, nos faz sangrar e fingir que tudo vai bem, que passamos incólumes ao mundo, não é? Que só ao que amamos é que conferimos poder suficiente para nos aniquilar; o amor é perigoso, rapaz, o amor é perigoso, o amor.
Agradeci a carona, e saltei do carro para a noite. Continuo, porém, respirando com dificuldade.

sábado, 17 de outubro de 2009

Papéis Recicláveis I

Sento e escrevo. O ritual de preencher folhas em branco, na tentativa que já sei falhada em sua proposta primeira: fabricar um eu coeso que apareça súbito e inumano em sua retidão, ao final de umas tantas linhas. Sento e escrevo, moto perpétuo, porque não sei fazer diferente. Porque não acredito em quem saiba. Porque, se não esse fio de tinta azul que atravessa a minha vida, então o quê?

domingo, 13 de setembro de 2009

"There's such a lot of world to see".


Desde pequena, a vontade de viajar. O sonho? O Velho Continente, desde que posso me lembrar. Ideias muitíssimo genéricas para uma criança: França e Inglaterra e Itália e Grécia. Em vez da Disney do Sea World, do Playcenter que seja, museus e cidades antiquíssimas que eu via pela televisão - o que fez de mim uma criança estranha, e provavelmente explica muita coisa. No início da adolescência, tive meus delírios aventureiros: América Latina de carro, esportes radicais na Nova Zelândia e sei lá mais o quê.


O fato é que, em meio a tantos planos, pouco viajei nessa vida. As finanças ainda não o permitiram, embora eu esteja pensando seriamente em juntar uma grana para minha primeira incursão na Europa, Península Ibérica, provavelmente. Antes disso, porém, estou tentada a dar uma passadinha por Machu Pichu, uma das minhas obsessões aos 15 anos - a outra, Ilha de Páscoa, terá de ficar para tempos de vacas gordas, porque já andei pesquisando os preços e não gostei nada, nada do que vi. O mais longe que cheguei até o momento foi Buenos Aires, ano passado, com Rafael.


O passar dos anos e a mudança constante de planos me ensinaram coisas muito importantes sobre o meu desejo de colocar a mochila nas costas e sair por aí. A grande verdade é que, para mim, não importa muito o destino da viagem; ele acaba sendo, de certa maneira, secundário. O processo da viagem é enfim o que me motiva, sair do conforto de casa e descobrir o que há na próxima trilha ou praia ou monumento, montanha, museu, café, festa, geleira, igreja, enfim, todas as pequenas compartimentarizações que a gente usa para se referir ao Mundo Grande, muito grande, que eu pretendo conhecer. E a moral da história, criançada, é que não se pode assistir tanto Indiana Jones e sair impune.
Vou passar a semana em Salvador, volto no sábado que vem, pessoal.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Prato do Dia: Dos diários de Sylvia Plath

"Escrever é um ato religioso: uma missão, uma reforma, um reaprendizado e um amar de novo as pessoas e o mundo como são e como poderiam ser. Uma postura que não passa como um dia datilografando ou lecionando. A escrita perdura: ela segue seu próprio caminho no mundo. As pessoas lêem: reagem como reagem a uma pessoa, a uma filosofia, uma religião, uma flor: gostam ou não gostam. A literatura as ajuda, ou não ajuda. Serve para intensificar a vida: você se entrega, experimenta, pergunta, olha, aprende e dá forma a isso: consegue mais: monstros, respostas, cor e forma, conhecimento. Primeiro, faz para si. Se der dinheiro, maravilhoso. Mas a gente não faz isso pelo dinheiro, prioritariamente. Não é o dinheiro que a leva a sentar na frente da máquina. Não que o despreze. É sensacional quando uma profissão rende o suficiente para o pão com manteiga. Escrevendo, pode render ou não. Como conviver com tal insegurança? E, o que é pior, a ocasional falta ou perda de fé na própria escrita? Como conviver com essas coisas?

O pior de tudo seria viver sem escrever. Portanto, como conviver com esses demônios menores e mantê-los assim, pequenos?"

domingo, 6 de setembro de 2009

Inutilia Truncat

Se você puxar pela memória há de se lembrar, ou não.

É uma das máximas do Arcadismo. Sim, sim, o que estou pedindo é um revival do seu Ensino Médio. Ao lado de expressões latinas como Aurea Mediocritas e Fugere Urbem, lá estava Inutilia Truncat. Não me peçam conhecimento enciclopédico sobre o assunto: não faço ideia de quem usou essa expressão pela primeira vez e o pouco de latim que eu soube um dia (?) está tão fresco na minha cabeça quanto as traumáticas aulas de grego - deixo toda a erudição que eu poderia cultivar para o Google.

Como professora, era meu dever fazer as crianças decorarem que a grande onda do Arcadismo era "aparar o inútil", reduzir a exuberância das construções barrocas, seus excessos formais, para, numa linha mais clean, aproximar-se do rigor clássico. Nem preciso sinalizar que este tipo de informação é extremamente útil e relevante para a construção de um público leitor adolescente. Mas, vejam, se o universo ameaçasse implodir a cada contradição que os programas de Literatura impõem, os astrônomos dirigiriam os maiores tablóides sensacionalistas do planetinha azul, e não sobraria espaço para rumores do tipo Macaulay-Culkin-é -o-pai -do -filho mais-novo-de-Michael-Jackson. Enfim, nada disso vem ao caso, e a reflexão - inspirada tanto pelo sono quanto por um fim de semana especialmente improdutivo - está prestes a chegar ao seu próprio Big Crunch.

Antes que isso aconteça, é bom que eu me explique. É que o universo paralelo da vida acadêmica acaba comigo. Uma corrida contra o tempo para conseguir titulações, um protocolo que é necessário seguir, pessoas com quem não se pode perder o contato, congressos que são, em última análise, desperdício de tempo e de dinheiro, mas que precisamos ir ou não ganhamos certificados, bases para um tão desejado currículo Lattes gordinho e bem nutrido. De uma superficialidade medonha, e, no balanço, tão inútil quanto os lemas do arcadismo para meus alunos.

Acho que é a sobrecarga do semestre que está fazendo o meu sistema entrar em colapso. A escrita da dissertação (ou a ideia da escrita, já que ainda não há uma linha, e eu prometi uma introdução e sumário para minha orientadora nessa semana), o término da licenciatura (do contrário, só poderei continuar dando aulas ilegalmente), a faculdade número 2 (que ando pensando seriamente em trancar).

Momentos de crise como esse predicam soluções igualmente críticas: comprei um par de patins. E o primeiro que vier na minha caixa de comentários fazer piadinhas sobre a utilidade da minha última aquisição vai sentir toda a minha fúria (agora sobre rodas).





sábado, 5 de setembro de 2009

O Livreiro

Voltando à ativa com uma dica que a Luciana me passou por e-mail: um site de relacionamento para leitores, escritores e pseudo escritores, ratos de sebos e bibliotecas, gente que acompanha bienais, festivais literários e premiações, enfim, o Facebook, o Orkut dos contaminados pelo vírus da paixão pelos livros. Eu ainda estou aprendendo a mexer, mas, como boa desocupada que sou, já fiz minha conta lá. Para além da social, vale a pena dar uma conferida nas matérias e resenhas, há algumas bastante boas.

O Livreiro.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Enquanto a atualização não vem.

Este blog anda tão atualizado quanto a pasta da minha dissertação de mestrado. Enquanto a dona do blog e da dissertação está tentando tomar vergonha na cara, fiquem com a trilha sonora da minha vida nos últimos tempos (caso sério de amor à primeira vista pelo cantor)



(Jamie Cullum - Twentysomething)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

No meio da crise de abstinência de Internet

Compro um novo computador na sexta. Enquanto isso, tentem não me esquecer, está certo?

sábado, 1 de agosto de 2009

Prato do Dia: Pequenos Poemas em Prosa (Spleen de Paris) - Charles Baudelaire

Embriagai-vos

É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.

_

(Eu sei que esse texto está mais batido que panfleto de missa dominical, mas, ora puxa, em primeiro lugar é fantástico. E, em segundo, foi a direta referência do meu coraçãozinho que bateu mais forte quando soube que o Beirut está confirmado no Rio, dia 8 de setembro. Pretendo embriagar-me de tudo e mais um pouco até lá. Salut, queridos!)

sábado, 25 de julho de 2009

Insônia I

Se um único desejo me fosse concedido por algum Mefistófeles perdido nas encruzilhadas do meu mundo, nada de vida eterna, glória e reconhecimento. Nenhum virtuosismo artístico, nenhuma aparência melhor ou qualquer homem que eu quisesse. Tudo bobagem.

Minha alma iria de bom grado ao diabo que conseguisse exorcizar algumas ideias de mim.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Prato do Dia: Carta a uma Amiga - Inês Pedrosa (com fotografias de Maria Irene Crespo)



Esse livro nasceu da vontade de Inês Pedrosa de trazer aos nossos olhos as fotografias de Maria Irene Crespo, que a encantaram desde a infância. Para tanto, teceu uma história romanceada em torno dessas fotografias. Uma longa carta para uma amiga em Paris, trantornada com uma recente separação, que reconta a trajetória de Helena (a autora fictícia das imagens que também seguem anexas), outra amiga, uma vez que entende muito bem a semelhança entre todas as dores femininas do mundo: "todas as minhas amizades são tuas, no momento em que necessitas do calor que o desconsolo da paixão apagou do teu corpo".

Fruto da união de dois olhares líricos sobre o mundo que nos cerca o resultado é um livro de uma delicadeza absurda, dessas que a gente não espera encontrar em qualquer esquina - ou estante. Recomendado não só às minhas amigas, mas também aos meus amigos, claro.
_______________________________________________________________________

"Uma das coisas que nos une é esta partilha das coisas que amamos, na presunção ingênua de que esse amor possa tornar-se contagioso. A sombra do tempo recorta essa ingenuidade com nitidez. As razões que nos levam a preferir este livro e não outro, estas minhas imagens, os meus amigos, pertencem à ordem do ilógico, do arbitrário e, em última análise, do frívolo. Nesse ponto, consola-me a análise que Voltaire faz , pela mãe de Fernando Savater, em O Jardim das Dúvidas: "É por sermos frívolos que a maioria das pessoas não decide enforcar-se". Pois é. Sob o manto socialmente correto da frivolidade abrigamos de nós mesmos as mais irracionais paixões. às vezes é por uma capa, por um parágrafo apanhado num folhear distraído, que escolhemos um livro, da mesma forma que por um movimento imperceptível escolhemos um amigo. Com a inconsciente melancolia de todos os livros e amigos possíveis que simplesmente não se cruzaram no nosso caminho.

Que o amor é suja desmemória, provam-no incessantemente os livros quase esfolados pelas diferentes tintas com que, ao longo dos anos, sublinhei. Posso, amanhã, depois de ter destacado uma frase, descobrir outras, possivelmente aquelas que chegariam ao coração de outro de seus virtuais leitores - que, por isso mesmo, nunca se materializará. A crescente virtualização do real confere uma ampliada inatualidade à imagem de D. Quixote, action-man de outras infãncias, lutando pelo sublime e desmoronando-se pateticamente contra a patética objetividade dos moinhos de vento. Talvez falar dos objetos que amamos não sirva para nada; e é exatamente essa a mais inebriante das aventuras, num tempo em que tudo parece condenado a servir para alguma coisa. Para que serve esta carta que te escrevo, e que imagino como uma auto-estrada que me conduza até aí, Europa afora? Para nada, senão para dizer que não faz mal que chores só porque voltaste a ver o homem que te deixou porque não era capaz de te suicidar por ele, ou seja, de viveres como um quadrado de chocolate no bolso dele. Para nada, senão para enviar estas fotografias a sépia onde vi nascer a cor do mundo. Para nada, senão para te amar melhor - falando-te ao ouvido, aqui à distância, sentada no quarto escuro do teu coração, dizendo-te que não faz mal que não tenhas feito o famoso e cronometrado luto das fenixes da moda, que não faz mal que continues a oscilar entre o êxtase e os desespero, que não faz mal que ralhes às vezes tanto comigo, que não faz mal que tenhamos saudades do tempo em que tínhamos tempo para nos fartarmos uma da outra, que não faz mal que tenhas ciúmes dos meus amigos novos como eu tenho ciúmes das tuas Dominiques. Esta carta não serve para nada, a não ser para te dizer que tu habitas dentro destas fotografias da minha amiga Helena, como eu morava nelas antes mesmo de as compreender, porque o amor dos amigos entra por todas as moradas, sem pedir lecença ao tempo, e dorme em qualquer canto para acudir fora de hora às emergências imperceptíveis. Esta carta é um pequeno pedaçõ da nossa conversa infinita, sem a cerimônia do adeus nem a convenção dos beijos virtuais, porque do dicionário da amizade não consta a palavra despedida."

domingo, 19 de julho de 2009

Por uma vida menos ordinária.

Abrindo as comemorações do Dia do Amigo no Quinas e Cantos, um flash mob na Antuérpia. Mesmo aos amigos que não gostam de musicais (seus broncos sem coração!), nós merecemos em um dia particularmente entediante sair cantando e dançando por aí.




Feliz dia do amigo, amigos leitores e leitores amigos!

Sem título III

Há os que pouco falam, os evidentes reservados. Eu não: escondo-me atrás das tantas palavras que crio, na ilusão de que vão me proteger do mundo e de mim mesma.

Sinto-me afogar levando comigo a única frase que me salvaria, e que jamais conseguirei pronunciar.

sábado, 18 de julho de 2009

Da comédia humana - postando de mal-humor.

Sério, eu jamais vou entender porque sinto tanta dificuldade em executar ações relativamente simples. Eu poderia queixar-me por posts e posts sobre meus problemas com qualquer tipo de burocracia - que acabam INEVITAVELMENTE assumindo feições kafkianas. Eu poderia enumerar as inúmeras vezes em que um raciocínio muito simples me deixou durante horas sem ação; e como realmente pareço lobotomizada quando isso acontece. Mas não, gostaria apenas de compartilhar um momento "Querido Diário" para relatar a desgraça que desabou sobre minha cabeça, também chamada comumente de "noite de sábado".

Há uma única época do ano em Petrópolis que há algo para se fazer de verdade: durante a última quinzena de julho, o SESC promove um festival de inverno bastante bom aqui, em Teresópolis e Nova Friburgo. Caso você queira dar uma olhadinha na programação, o site é esse aqui, ó.

Estava eu no Rio de Janeiro, esperando pacientemente o sábado chegar porque tinha um show que eu queria muito ver e uma festa em que queria muito ir*, quando um amigo me ligou falando de uma peça em Petrópolis, no sábado. Rômulo encheu tanto o saco que eu concordei em abrir mão do show e da festa para acompanhá-lo, sob a condição de que ele fosse pegar os ingressos. (os ingressos são todos gratuitos, mas há que se ter a paciência estóica para acordar cedo na manhã do dia do evento e enfrentar uma fila concorridíssima para retirar os ingressos). Ele acordou às 6 só para isso, e quase não conseguiu.

O caso foi que, por absoluta parvoíce, conseguimos chegar uns poucos minutos atrasados no teatro, no tempo exato de fecharem as portas do mesmo nas nossas não menos parvas caras de desgosto absoluto. O resultado foram dois perdidos na fria e úmida noite petropolitana, afogando as mágoas do mundo em muita pizza. Nossa vida daria um sitcom de madrugada da Sony, é fato consumado.

O placar geral da noite: perdi o show, perdi a festa, perdi a peça, ganhei calorias.

Vida Real 4X0 Gabriela Ventura

A Comédia Humana, em 88 volumes, não dá conta de todos os tipos possíveis, como imaginava seu autor. Falta a palhaça aqui.


*Perdi a Go East, é verdade, mas me consolo ouvindo Beirut madrugada adentro, acompanhada pelo vinho que fiz questão de comprar no meio do caminho. Saber que eles virão ao Rio em setembro traz alento ao meu coraçãozinho, afinal tão bobo, coitado.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Anima Mundi 2009

Pequeno post, só para que não se esqueçam: o Anima Mundi começou antem! Será que só eu nessa terra fico que nem criança pequena, querendo assistir todos os "desenhos" de todas as sessões?

Lembrando que o evento, no Rio, vai de 10 a 19 de julho. Depois segue pra São Paulo, aportando por lá entre os dias 22 e 26. A programação você encontra aqui.

O aquecimento fica por conta de dois curtas que assisti - e adorei - no ano passado.




Prato do Dia: Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios - Marçal Aquino

"O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente de que gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta"

segunda-feira, 6 de julho de 2009

(SALQ) The Wonder Years


Mês difícil, muito difícil. O blog ficou às moscas porque a vida real em muito andou atrapalhando a virtual. Seja pela falta de tempo, seja porque escrever seria fatalmente indissociar-me de momentos de raiva, frustração e todos aqueles terríveis pensamentos-tabus que tentamos esconder até do analista, mas que saem na maior cara-de-pau em um post irritadiço - é para essas horas malignas que tenho um diário de papel, ora pois. Palavras mal ditas (ao menos aos que me são muito caros nessa vida) não fazem meu gênero: a raiva dá, a raiva passa, mas nem sempre a culpa vai embora. Foi tempo de ouvir, conversar e esperar.

Agora é tempo de começar tudo de novo. Não sem a sensação de final de The Wonder Years. A faculdade acabou há muito, o mestrado entrou na reta final. Todas as exigências da vida adulta andam despencando não apenas sobre a minha cabeça; também as pessoas à minha volta estão emaranhadas em suas crises. Não que o que esteja por vir não possa ser ótimo, não sou tão saudosista assim. Mas, nas palavras do grande e sábio Kevin Arnold:

"Crescer é algo muito rápido. Um dia você usa fraldas e no outro você vai embora. Mas as memórias da infância permanecem com você. Lembro-me de um lugar, uma cidade, uma casa como várias outras casas, um quintal como vários outros quintais, em uma rua como várias outras ruas. E o fato é que, após todos estes anos, eu ainda olho para trás: foram anos incríveis."

Sem dúvida. E agora, vâmo que vâmo. Os trabalhos estão reabertos e o blog pretende voltar ao normal o quanto antes.

Não, claro, sem a little help from my friends. ;)