domingo, 22 de novembro de 2009
Mitologias.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Papéis Recicláveis V
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Papéis Recicláveis IV
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Papéis Recicláveis III
Escreva, ele disse. E como eu desde sempre soube que escrever é lançar pontes, tenho medo. Escrever é aquele relâmpago de sinceridade correndo nos olhos, a vontade que sufoco na sintaxe do cotidiano. Mas escrevo, entretanto, talvez porque ele tenha pedido. E escrevo sobre ele, que sequer imagina. Pedaço de nuvem, distante e inapreensível, um vento louco por dentro soprando sobre os passos impertinentes que reconfiguram o mundo.
Eu só queria ter dito que entendo, ainda que não entenda, porque nunca se entende nada, de todo. Eu só queria que ele não me mandasse escrever, porque escrever é também a tentativa de entender. E eu só queria não entender, porque os que não entendem saem por aí vivendo almoços de domingo, engarrafamentos, casamentos de primas distantes, problemas da especulação do mercado imobiliário, enquanto eu. É tarde. Sob meus dedos eu o desenho à palavras. E faço com que durma, e coloco um ponto final para não atrapalhá-lo em minha vigília desajeitada.
Escrevo, digo eu. Que queria esquecer o escrever, e ficar quieta no meu canto. Talvez porque ele tenha pedido, e simplesmente porque ele não lerá.
Esta é minha vingança.
É também minha ternura.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Prato do Dia: Como falar poesia, Leonard Cohen (sim, o cantor)
sábado, 24 de outubro de 2009
O Abajur Mais Feio do Mundo
No momento em que redijo esse texto, à caneta, e espero publicá-lo no blog sem grandes modificações, desenrola-se uma palestra de uma grande professora, em um grande Congresso Internacional de Literatura. O cenário é um grande casarão no Rio de Janeiro, herança da opulência da família real foragida na colônia. Divido a sala com outros grandes: professores, críticos literários e doutores - não sem a razão o pé direito do lugar é tão alto - e com o Abajur Mais Feio do Mundo.
Sim, senhoras e senhores, leitores do meu humilde, diminuto e preguiçoso blog, apresento-lhes o abajur mais feio do mundo. (podem conferir por si mesmos, a foto é real). Seu corpo não combina com a cúpula, e os dois decididamente descombinam do resto do auditório improvisado, quiçá do resto do universo. Bojudo, em forma de vaso, a porcelana adornada com motivos florais, em pelo menos quatro cores (meu posto de observação não encontra-se perto o suficiente para maiores minúcias, desculpem-me). À moda de cúpula, uma espécie de saia godê estampada em cores terrosas e arrematada por uma barra larga está atada por um laçarote vermelho, desses de buquês de rosas do dia dos namorados.
Enquanto fico me perguntando quem poderia ter sido o criador de tamanho acinte para a classe dos objetos de decoração, percebo duas professoras cochilando ante a fala da oradora, que já deve ter se estendido por uma boa meia hora, uma pena que eu não tenha cronometrado. Outro corresponde-se por sms com alguém, numa mini-conferência que parece bem mais animada que a nossa. Pessoas entram e saem o tempo todo, o cigarro e o banheiro como perfeitas desculpas para esticar as pernas e espantar o sono. Há quem faça cara séria, claro: quanto mais monocórdio o tom da voz que palestra, mais e mais sérias as caras. Em que transe estarão imersos, isso eu não sei, mas deve ser importante.
Já quando eu achava que tudo ia ficar por isso mesmo, a luz do abajur de súbito piscou. Ninguém percebeu, posto que todos os outros estavam concentrados, ou desconcentrados, depende do referencial. Só eu, na minha contemplação ainda aturdida, olhos fitos novamente no Abajur Mais Feio do Mundo: piscou para mim, percebi. Não é por ser feio (afinal, que culpa tem um abajur?) que o pobre não pode desenvolver talentos críticos, e talvez até a autocrítica - o ornitorrinco do design é, na verdade, como descobri rapidamente, muitíssimo observador, e estava justamente medindo a mim, da mesma forma que o media, e que, cúmplices, cobríamos a extensão da sala com nossos olhares meio enfadados, meio divertidos.
Faz-se necessário que eu os alerte, nesse momento: das conclusões as quais o abajur mais feio do mundo chegou nessa noite, só posso fazer suposições, visto que não tivemos tempo ou oportunidade para uma conversa - nossa relação estava condenada pelas convenções do evento. Doutor Fulano, com sua baixa resistência ao vinho do coquetel, pode muitíssimo bem pendurar-se no lustre mais próximo. Já a mim não me é permitido trocar impressões com um abajur, por mais sóbria que esteja; a vida está cheia de injustiças.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Papéis Recicláveis II
sábado, 17 de outubro de 2009
Papéis Recicláveis I
domingo, 13 de setembro de 2009
"There's such a lot of world to see".

segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Prato do Dia: Dos diários de Sylvia Plath
O pior de tudo seria viver sem escrever. Portanto, como conviver com esses demônios menores e mantê-los assim, pequenos?"
domingo, 6 de setembro de 2009
Inutilia Truncat
É uma das máximas do Arcadismo. Sim, sim, o que estou pedindo é um revival do seu Ensino Médio. Ao lado de expressões latinas como Aurea Mediocritas e Fugere Urbem, lá estava Inutilia Truncat. Não me peçam conhecimento enciclopédico sobre o assunto: não faço ideia de quem usou essa expressão pela primeira vez e o pouco de latim que eu soube um dia (?) está tão fresco na minha cabeça quanto as traumáticas aulas de grego - deixo toda a erudição que eu poderia cultivar para o Google.
Como professora, era meu dever fazer as crianças decorarem que a grande onda do Arcadismo era "aparar o inútil", reduzir a exuberância das construções barrocas, seus excessos formais, para, numa linha mais clean, aproximar-se do rigor clássico. Nem preciso sinalizar que este tipo de informação é extremamente útil e relevante para a construção de um público leitor adolescente. Mas, vejam, se o universo ameaçasse implodir a cada contradição que os programas de Literatura impõem, os astrônomos dirigiriam os maiores tablóides sensacionalistas do planetinha azul, e não sobraria espaço para rumores do tipo Macaulay-Culkin-é -o-pai -do -filho mais-novo-de-Michael-Jackson. Enfim, nada disso vem ao caso, e a reflexão - inspirada tanto pelo sono quanto por um fim de semana especialmente improdutivo - está prestes a chegar ao seu próprio Big Crunch.
Antes que isso aconteça, é bom que eu me explique. É que o universo paralelo da vida acadêmica acaba comigo. Uma corrida contra o tempo para conseguir titulações, um protocolo que é necessário seguir, pessoas com quem não se pode perder o contato, congressos que são, em última análise, desperdício de tempo e de dinheiro, mas que precisamos ir ou não ganhamos certificados, bases para um tão desejado currículo Lattes gordinho e bem nutrido. De uma superficialidade medonha, e, no balanço, tão inútil quanto os lemas do arcadismo para meus alunos.
Acho que é a sobrecarga do semestre que está fazendo o meu sistema entrar em colapso. A escrita da dissertação (ou a ideia da escrita, já que ainda não há uma linha, e eu prometi uma introdução e sumário para minha orientadora nessa semana), o término da licenciatura (do contrário, só poderei continuar dando aulas ilegalmente), a faculdade número 2 (que ando pensando seriamente em trancar).
Momentos de crise como esse predicam soluções igualmente críticas: comprei um par de patins. E o primeiro que vier na minha caixa de comentários fazer piadinhas sobre a utilidade da minha última aquisição vai sentir toda a minha fúria (agora sobre rodas).
sábado, 5 de setembro de 2009
O Livreiro
O Livreiro.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Enquanto a atualização não vem.
(Jamie Cullum - Twentysomething)
terça-feira, 18 de agosto de 2009
No meio da crise de abstinência de Internet
sábado, 1 de agosto de 2009
Prato do Dia: Pequenos Poemas em Prosa (Spleen de Paris) - Charles Baudelaire
É necessário estar sempre bêbado.
Tudo se reduz a isso; eis o único problema.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo,
que vos abate e vos faz pender para a terra,
é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio,
na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola,
a tudo o que canta, a tudo o que fala,
perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder:
É hora de se embriagar!
Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas!
De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.
_
(Eu sei que esse texto está mais batido que panfleto de missa dominical, mas, ora puxa, em primeiro lugar é fantástico. E, em segundo, foi a direta referência do meu coraçãozinho que bateu mais forte quando soube que o Beirut está confirmado no Rio, dia 8 de setembro. Pretendo embriagar-me de tudo e mais um pouco até lá. Salut, queridos!)
sábado, 25 de julho de 2009
Insônia I
Minha alma iria de bom grado ao diabo que conseguisse exorcizar algumas ideias de mim.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Prato do Dia: Carta a uma Amiga - Inês Pedrosa (com fotografias de Maria Irene Crespo)
Fruto da união de dois olhares líricos sobre o mundo que nos cerca o resultado é um livro de uma delicadeza absurda, dessas que a gente não espera encontrar em qualquer esquina - ou estante. Recomendado não só às minhas amigas, mas também aos meus amigos, claro.
"Uma das coisas que nos une é esta partilha das coisas que amamos, na presunção ingênua de que esse amor possa tornar-se contagioso. A sombra do tempo recorta essa ingenuidade com nitidez. As razões que nos levam a preferir este livro e não outro, estas minhas imagens, os meus amigos, pertencem à ordem do ilógico, do arbitrário e, em última análise, do frívolo. Nesse ponto, consola-me a análise que Voltaire faz , pela mãe de Fernando Savater, em O Jardim das Dúvidas: "É por sermos frívolos que a maioria das pessoas não decide enforcar-se". Pois é. Sob o manto socialmente correto da frivolidade abrigamos de nós mesmos as mais irracionais paixões. às vezes é por uma capa, por um parágrafo apanhado num folhear distraído, que escolhemos um livro, da mesma forma que por um movimento imperceptível escolhemos um amigo. Com a inconsciente melancolia de todos os livros e amigos possíveis que simplesmente não se cruzaram no nosso caminho.
Que o amor é suja desmemória, provam-no incessantemente os livros quase esfolados pelas diferentes tintas com que, ao longo dos anos, sublinhei. Posso, amanhã, depois de ter destacado uma frase, descobrir outras, possivelmente aquelas que chegariam ao coração de outro de seus virtuais leitores - que, por isso mesmo, nunca se materializará. A crescente virtualização do real confere uma ampliada inatualidade à imagem de D. Quixote, action-man de outras infãncias, lutando pelo sublime e desmoronando-se pateticamente contra a patética objetividade dos moinhos de vento. Talvez falar dos objetos que amamos não sirva para nada; e é exatamente essa a mais inebriante das aventuras, num tempo em que tudo parece condenado a servir para alguma coisa. Para que serve esta carta que te escrevo, e que imagino como uma auto-estrada que me conduza até aí, Europa afora? Para nada, senão para dizer que não faz mal que chores só porque voltaste a ver o homem que te deixou porque não era capaz de te suicidar por ele, ou seja, de viveres como um quadrado de chocolate no bolso dele. Para nada, senão para enviar estas fotografias a sépia onde vi nascer a cor do mundo. Para nada, senão para te amar melhor - falando-te ao ouvido, aqui à distância, sentada no quarto escuro do teu coração, dizendo-te que não faz mal que não tenhas feito o famoso e cronometrado luto das fenixes da moda, que não faz mal que continues a oscilar entre o êxtase e os desespero, que não faz mal que ralhes às vezes tanto comigo, que não faz mal que tenhamos saudades do tempo em que tínhamos tempo para nos fartarmos uma da outra, que não faz mal que tenhas ciúmes dos meus amigos novos como eu tenho ciúmes das tuas Dominiques. Esta carta não serve para nada, a não ser para te dizer que tu habitas dentro destas fotografias da minha amiga Helena, como eu morava nelas antes mesmo de as compreender, porque o amor dos amigos entra por todas as moradas, sem pedir lecença ao tempo, e dorme em qualquer canto para acudir fora de hora às emergências imperceptíveis. Esta carta é um pequeno pedaçõ da nossa conversa infinita, sem a cerimônia do adeus nem a convenção dos beijos virtuais, porque do dicionário da amizade não consta a palavra despedida."
domingo, 19 de julho de 2009
Por uma vida menos ordinária.
Feliz dia do amigo, amigos leitores e leitores amigos!
Sem título III
Sinto-me afogar levando comigo a única frase que me salvaria, e que jamais conseguirei pronunciar.
sábado, 18 de julho de 2009
Da comédia humana - postando de mal-humor.
Há uma única época do ano em Petrópolis que há algo para se fazer de verdade: durante a última quinzena de julho, o SESC promove um festival de inverno bastante bom aqui, em Teresópolis e Nova Friburgo. Caso você queira dar uma olhadinha na programação, o site é esse aqui, ó.
Estava eu no Rio de Janeiro, esperando pacientemente o sábado chegar porque tinha um show que eu queria muito ver e uma festa em que queria muito ir*, quando um amigo me ligou falando de uma peça em Petrópolis, no sábado. Rômulo encheu tanto o saco que eu concordei em abrir mão do show e da festa para acompanhá-lo, sob a condição de que ele fosse pegar os ingressos. (os ingressos são todos gratuitos, mas há que se ter a paciência estóica para acordar cedo na manhã do dia do evento e enfrentar uma fila concorridíssima para retirar os ingressos). Ele acordou às 6 só para isso, e quase não conseguiu.
O caso foi que, por absoluta parvoíce, conseguimos chegar uns poucos minutos atrasados no teatro, no tempo exato de fecharem as portas do mesmo nas nossas não menos parvas caras de desgosto absoluto. O resultado foram dois perdidos na fria e úmida noite petropolitana, afogando as mágoas do mundo em muita pizza. Nossa vida daria um sitcom de madrugada da Sony, é fato consumado.
O placar geral da noite: perdi o show, perdi a festa, perdi a peça, ganhei calorias.
Vida Real 4X0 Gabriela Ventura
A Comédia Humana, em 88 volumes, não dá conta de todos os tipos possíveis, como imaginava seu autor. Falta a palhaça aqui.
*Perdi a Go East, é verdade, mas me consolo ouvindo Beirut madrugada adentro, acompanhada pelo vinho que fiz questão de comprar no meio do caminho. Saber que eles virão ao Rio em setembro traz alento ao meu coraçãozinho, afinal tão bobo, coitado.
(Um post para o